Antes a crença, do que a descrença
Em um desses cursos que a gente faz por aí para dar satisfação à sociedade e atender às exigências do status quo mundial, uma jovem professorava sobre a diferença entre conhecimento científico e conhecimento popular. Citou como exemplo desse, não se assustem, “passar por debaixo de escada da azar”...
Ai meu Deus!, mas continuou explicando, a seguir, que o conhecimento científico, racionaliza a experiência e o popular passa de geração para geração sem uma explicação lógica etc.. Mas esse não é o ponto que nos interessa.
A professora trocou, no popular, alhos por bugalhos, mas deixa pra lá. O fato é que nada é por acaso, nem mesmo as crendices. Pena que Câmara Cascudo tenha sido esquecido pelo Brasil e um de seus livros tenha sido alvo da cobiça de algum amigo do alheio em minha estante.
Não é por acaso, por exemplo, que a “crendice” de se pedir para o visitante sair pela mesma porta que entrou. Tem um porque e tem uma explicação. Remonta-nos há alguns milhares de anos na velha e misteriosa Índia. E quem nos explica é o estudioso e astrólogo Cid de Oliveira.
_Na tradição indiana expressa nos Vedas, o ciclo anual é dividido em duas metades: uma ascendente e outra descendente. A fase ascendente, que começa quando o sol chega ao dêva-loka (lugar dos deuses), no início do Capricórnio, é chamada Dêva-Yâna (caminho dos deuses).
A fase descendente, que começa quando o sol chega ao pitri-loka (lugar dos pais ou dos antepassados), no início do Câncer, é chamada Pitri-Yâna (caminho dos antepassados). (Uma entrada, Câncer, uma saída, Capricórnio. Inverno e verão).
Além do mais, para essa tradição o círculo zodiacal é figuração da caverna cósmica, local onde se dá a manifestação. Essa modelar caverna tem duas portas: a porta dos antepassados correspondente simbolicamente a Câncer, e a porta dos deuses correspondente a Capricórnio.
"Um ser qualquer desce ao mundo manifestado pela porta dos antepassados e dependendo de seu nível de realização sairá do mundo da manifestação pela porta dos deuses e, liberado, não retorna; ou pela porta dos antepassados, a mesma por onde entrou, nesse caso, voltará pelo ciclo das existências: o samsara.
Existem estudos interessantíssimos sobre tudo isso, as tradições, como as festas juninas e natalinas. Mas, em resumo, o que as escolas tratam como crendices, na verdade são um imenso poço de cultura e verdadeiro conhecimento que todos nós colocamos no velho baú do esquecimento e que nos deixariam próximos ao estado natural, como elemento da natureza que a modernidade e “conhecimento científico” nos furtaram.
Tudo registrado por Porfírio, discípulo de Plotino, na interpretação que fez sobre o simbolismo do antro das ninfas, caverna de duas entradas onde Atená escondeu os tesouros de Ulisses, aquele cujas aventuras estão descritas na Odisséia de Homero.
Já os nossos tesouros devem ter passado pela escada da professora. Que azar!, pois o conhecimento popular melhora o mundo, e o científico?, representa felicidade e paz, que nos interessam?, Ou apenas nos ilude com uma falsa felicidade do ter, perdido no imenso vazio existencial?
Antes a crença, que a descrença. O homem, filho do tempo, do presente sabe pouco, do passado menos e do futuro nada, mas teima em viver nele, que nem existe...
A ciência dos futuros — disse Platão — lembrada por Padre Antônio Vieira em seu “História do Futuro”, é a que distingue os deuses dos homens, e daqui lhes veio sem dúvida aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses
Aos primeiros homens, a quem Deus tinha infundido todas as ciências, nenhuma lhes faltava senão a dos futuros, e esta lhes prometeu o Demônio quando lhes disse: Eritis sicut Dii, scientes bonum et malum [Vulgata, Gênesis 3.5]. Sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.
2 comentários:
Feliz de você, que apenas ouviu uma grande bobagem, mas não fui punido por ousar discordar.
Em um desses cursos que a gente faz por aí, como você bem o disse, pelo status quo exigido por uma sociedade analfabeta, ouvi da professora de Metodologia Científica que "Alquimia não passara de superstição". Formada em Química Pura, em uma conceituada Universidade, "ousei" a ela enviar um discreto bilhete, não querendo dela discordar na presença de todos. Expliquei em breves palavras o que era alquimia, pedindo mil desculpas por não poder concordar com ela. Triste interferência! Fui perseguida até o final da pós-graduação e, ao concluir, tive minha monografia aprovada com a nota mínima necessária, trabalho que obteve elogios explícitos de pHD da UNB, presente na banca, pela clareza na exposição de idéias.
Isso me obriga, mais uma vez, a concordar com minha colega Fátima: melhor mesmo é permanecer calada, escutando burrices e concordando com elas. Faça-se de burro e melhores dias virão...
Jack Canela - Professora - Montes Claros (MG)
"A qualidade da educação dada às classes inferiores deve ser da espécie mais pobre, de tal modo que o fosso da ignorância que isola as classes inferiores
das classes superiores seja e permaneça incompreensível pelas classes inferiores". (cf. "Armas
silenciosas para guerra tranquilas"
Postar um comentário